300 mil mortes por Covid-19 no Brasil: sepultamentos sem velório agravam o luto na pandemia

Em poucos minutos, corpos são sepultados em caixões lacrados, e familiares vivem despedidas solitárias

Bruna Silva deixou o marido, Bruno Cesar, no hospital na primeira semana de março. Foi quando o viu pela última vez. A suspeita de Covid-19 se confirmou, e o analista de dados foi internado no mesmo momento em que chegou à emergência do Hospital  Balbino, em Olaria, na Zona Norte do Rio de Janeiro. Vinte e um dias depois, ela seguia o caixão lacrado com o corpo do marido no Cemitério do Caju.

— Pode abrir um pouquinho para eu ver meu marido pela última vez? — Bruna pediu ao agente funerário, para ouvir a resposta negativa.

Em menos de cinco minutos, o caixão deixou o carro da casa funerária e foi sepultado, cercado por cinco familiares. O filho de 8 anos não estava entre eles – a mãe decidiu poupar a criança do enterro sem velório.

– Está aqui mais uma vítima do desgoverno – dizia entre lágrimas a tia de Bruno, Claudia dos Santos Silva.

Com o país chegando à marca de 300 mil mortes pela Covid-19, os enterros são acelerados, e a ausência de velórios, uma diretriz desde o início da pandemia, impõe às famílias um ritual de sepultamento solitário e rápido.

A reportagem do GLOBO acompanhou cinco enterros de vítimas da Covid-19 no Cemitério do Caju, na Zona Norte do Rio, na última sexta-feira. O mais longo levou 12 minutos. O mais rápido, quatro. Todos solitários – num deles, a neta, de 24 anos, enterrava sozinha o avô, de 78 anos, depois de a mãe ter, ela também, a suspeita de Covid confirmada.

‘É como se uma cidade média desaparecesse todo mês’

Para o presidente da Associação de Empresas e Diretores do Setor Funerário (Abredif), Lourival Panhozzi, “estão descartando corpos, e não sepultando pessoas”.

– O que estamos fazendo hoje é indigno, com enterros em poucos minutos. Esses corpos merecem respeito. Podem ir, sim, para uma funerária, ficar numa sala e aguardar o dia seguinte para o momento de sepultamento – argumenta Panhozzi, que trabalha para lançar, na próxima semana, um portal com dados de todos os cemitérios do país. – Poderemos deslocar corpos para cidades próximas, por exemplo, caso um cemitério local não tenha vaga. Com planejamento, podemos evitar as valas comuns.

Panhozzi não descarta um colapso funerário:

– Seria prepotência dizer que não existe risco de faltar urna funerária. Na situação em que estamos, existe risco de tudo. Estamos com 500 mil óbitos previstos no trimestre, ou 5.555 óbitos por dia. A média normal era de 3.575 por dia, ou seja, são 2.000 óbitos a mais por dia. É uma cidade média do Brasil que desaparece por mês. Sem planejamento, não vamos suportar.

A Abredif fez uma chamada aos cemitérios para que suspendam férias de agentes funerários pelos próximos 60 dias. Também solicitou aos fabricantes de urnas, para que trabalhem em sua capacidade máxima. Só assim, acredita, o país não enfrentará uma escassez de caixões.

— Pedimos aos que têm capacidade de produzir 110 mil urnas por mês que trabalhem para atingir esse número ou mais, pois precisamos que produzam nos próximos três meses no mínimo 400 mil urnas. Para o próximo trimestre, trabalhamos com um número absoluto de 500 mil mortes. E temos um estoque regulador de pouco mais de 100 mil urnas. (Só) com esse aumento na produção, conseguiremos adequar à necessidade.

Segundo a prefeitura do Rio, o protocolo exige que as urnas sejam lacradas e que não ocorram cerimônias fúnebres. Os dados de sepultamentos em março de 2021 ainda não refletem a realidade, já que o prazo legal para o registro de um óbito é de 15 dias.

De 1º de março até o último dia 21, foram realizados ao todo (não apenas de vítimas de Covid) 4.644 sepultamentos nos cemitérios da cidade — 13 públicos e oito privados —, um aumento de 33% com relação ao mesmo período do ano passado.

Professora de Psiquiatria da Unicamp, Clarissa de Rosalmeida Dantas trabalha num serviço batizado de Apoio Emocional aos Pacientes com Covid-19 e seus Familiares, o Apem-Covid, criado durante a pandemia no Hospital das Clínicas da Unicamp, em Campinas. Sem velório, sem a possibilidade de ver o corpo de seus entes queridos uma última vez,  a experiência do luto sofre uma ruptura, como explica a psiquiatra:

— Os rituais funerários são uma marca da cultura ocidental, ajudam a assimilar uma passagem difícil. A falta do velório e da possibilidade de ver o corpo dá ao luto um sentimento de irrealidade, que já existe numa situação de perda, mas é muito agravado pela impossibilidade de ver o corpo. Os familiares tornam-se prisioneiros da ambiguidade.

Ela lembra que muitos dos atendidos no Hospital de Clínicas da Unicamp criavam “fantasias acerca da troca de corpos, ou mesmo a ideia de que a morte de seu ente querido havia sido erroneamente comunicada, algo acentuado pelo cenário político de negação da pandemia”.

Há, segundo ela, algo de semelhante ao que foi experimentado pelos familiares dos desaparecidos políticos durante a  ditadura militar (1964-1985).

— O desaparecido torna-se uma figura envolta por penumbra, não está morto, mas tampouco está vivo. Está sempre presente e ausente.  É como se fosse negada à família a certeza da morte. A última despedida, a última homenagem, a reunião em torno do corpo pela última vez, tudo isso dá materialidade à morte – diz a psiquiatra. – É possível criar outros rituais, individuais e simbólicos, para ajudar a assimilar a perda. Criar uma forma de compartilhar memórias da pessoa que morreu, por exemplo, é um caminho. E buscar a rede de afetos sempre.

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