• quinta-feira , 17 janeiro 2019

Retrospectiva: Relembre o melhor do teatro em 2018 na capital federal

Ainda com o Teatro Nacional fechado, artistas e cênicos locais, nacionais e internacionais reuniram forças com espetáculos relevantes

Matheus Nachtergaele esteve em Brasília com ‘Processo de conscerto do desejo’
(foto: Marcos Hermes/Divulgação)

Os palcos da capital receberam peças de diversos portes e temas neste ano. Entre os destaques de 2018 no teatro, estão produções locais, os lotados espetáculos que rodaram todo o Brasil com nomes consagrados, além das apresentações internacionais que estiveram em Regiões Administrativas, graças a mais uma edição do Cena Contemporânea, que se mantém como carro-chefe das artes cênicas em Brasília. O ano também foi de revitalização de espaços há anos parados e que devem fortalecer a cena brasiliense.

Um momento emocionante foi proporcionado, por Matheus Nachtergaele, no íntimo espetáculo solo Processo de conscerto do desejo. Acompanhado apenas por instrumentos de cordas, o ator homenageou a mãe, Maria Cecília Nachtergaele, que tirou a própria vida antes que ele pudesse ter memória dela. O texto foi escrito em 2016 pelo ator, mas chegou a Brasília em novembro deste ano, quando o artista se abriu diante da plateia da Caixa Cultural.
Em julho, Caio Blat encarou a missão de protagonizar um dos cânones de nossa literatura e arrancou aplausos em todo Brasil ao levar aos palcos a peça Grande sertão: Veredas, baseada no romance de Guimarães Rosa. A peça foi eleita melhor espetáculo de teatro pelo Prêmio Bravo! 2018. A diretora, Lia Bessa, foi reconhecida pelos prêmios APCA 2017 e Shell — que também premiou Blat.
No mesmo mês, a atriz Denise Fraga, viveu uma mulher tomada pelo desejo de vingança no aclamado espetáculo A visita da velha senhora. Na comédia trágica, uma cidade arruinada vê na chegada de uma ricaça a última esperança. Em troca da salvação, ela pede a morte do antigo amante, que a engravidou e não assumiu a paternidade. Em choque, a cidade passa a se questionar sobre valores éticos e morais. A peça foi indicada a nove prêmios Shell.
Um espetáculo pensado em Brasília, mas que virou produção nacional foi o monólogo, protagonizado pela atriz Gisele Fróes, O imortal, chegou em março à capital. Dirigido pelo brasiliense Adriano Guimarães, o espetáculo foi baseado em um conto do argentino Jorge Luis Borges. Gisele Fróes entrou em cena para conduzir a plateia numa conversa sobre vida e morte. Com leveza e destreza, questões filosóficas pairavam pelo palco e levaram o público a refletir sobre a imortalidade.
Após ter de ficar com as atividades paradas por dois anos devido à falta de orçamento, a companhia de dança goiana Quasar voltou aos palcos de Brasília em dezembro com o espetáculoO que ainda guardo… A apresentação foi também uma comemoração dos 30 anos de existência da companhia, que levou 10 bailarinos ao palco para prestar uma homenagem à brasilidade e à bossa nova, que completou 60 anos.
A força Total

Matheus Nachtergaele esteve em Brasília com ‘Processo de conscerto do desejo’ (foto: Marcos Hermes/Divulgação)

O Distrito Federal também desfrutou de grandes espetáculos locais que fizeram o público se emocionar, rir e refletir. Em fevereiro, um dos nomes mais criativos da cena teatral brasiliense, Hugo Rodas reuniu um forte time de artistas para entrar em cena sob a direção dele e compor personagens carismáticos deAtra Bilis, texto da premiada autora espanhola contemporânea Laila Ripoll. A história, que ganhou vida por meio do realismo mágico da narrativa, chegou ao público em uma versão inusitada, com o elenco dividido entre masculino e feminino.

Na versão brasiliense da obra Clôture de l’amour, de Pascal Rambert, a peça Encerramento do amor, do diretor Diego Bresani, foi a única estreia local do festival Cena Contemporânea, em setembro. A ideia da adaptação local veio da atriz Ada Luana, do grupo Setor de Áreas Isoladas, que contou com o apoio de Bresani e do ator João Campos.
Em outubro, para a comemoração dos 15 anos da Cia. Nós no Bambu, o espetáculo brasiliense O vazio é cheio de coisa teve como principal característica deixar o público livre para dar várias interpretações ao que é apresentado no palco, assim como em várias peças da companhia.
Um dos mais antigos grupos de circo teatro contemporâneo do Brasil, fundado em Brasília em 1982, o Circo Teatro Udi Grudi promoveu em dezembro o espetáculo cômico familiar O Cano. Inspirado no tradicional número circense Excêntricos musicais, três palhaços viveram em cena situações absurdas e inusitadas, brincando com a relação entre a música, feita de maneira não convencional, e o clown, um ser cômico e poético.
Muitas risadas
O humor invadiu a capital com peças que, além de trazer boas gargalhadas, também foram marcados por trazerem questões reflexivas. Um dos destaques foi o espetáculo O Rei do Mundo — Uma comédia sobrenatural, estrelado pelo ator Eduardo Sterblitch, que contracenou com com a esposa, a atriz Louise D’Tuani, e com os atores Diego Becker, Claudinei Brandão e Thiago Brianti. Com tons de acidez e dramaticidade, contou a história do mentiroso, egoísta e irresponsável Pedro Peregrino, que tenta de tudo para ser rico e poderoso.
Em fevereiro, um dos mais importantes textos de Timochenko Wehbi, Palhaços recebeu uma montagem estrelada pelo eterno trapalhão Dedé Santana, acompanhado do ator Fioravante de Almeida, sob a direção de Alexandre Borges. A tragicomédia contou a história de um palhaço que tem a sua rotina alterada ao se deparar com um espectador no camarim e faz com que ambos questionem a vida e a própria existência.
E, para compor o time de estrelas do humor, Nany People chegou em Brasília com o espetáculo Minhas verdades, provocando risos e reflexões ao soltar o verbo e revelar de maneira irreverente as situações que vivenciou ao longo de sua trajetória — bem como o primeiro beijo, a primeira transa e a transição de gênero.
Cena inclusiva
Um dos maiores movimentadores do teatro da capital foi a 19ª edição do Cena Contemporânea, que ocorreu em setembro. O festival trouxe um total de 30 espetáculos aos teatros do Distrito Federal, nos quais questões contemporâneas invadiram a dramaturgia. Como o próprio nome do festival indica, o Cena Contemporânea teve como característica representar a atualidade. Dos espetáculos, nacionais e internacionais, pelo menos sete representaram assuntos, como imigração, intolerância e os diferentes tipos de relações humanas.
Uma destas questões foi tratada na peça do Coletivo Errática. Ramal 340: Sobre migração das sardinhas ou porque as pessoas simplesmente vão embora nasceu de uma pesquisa de linguagem com dramaturgia autoral e processos colaborativos sobre os movimentos humanos no mundo: imigrações e emigrações.
Já o espetáculo Ícaro contou a história da vida do ator Luciano Mallmann, que sofreu uma lesão medular e o deixou de cadeira de rodas, e que foi a inspiração para que ele escrevesse e protagonizasse o monólogo, em cartaz desde 2017. Mallamann, sozinho no palco, interpretou seis cenas, cada uma com um personagem diferente sob direção de Liane Venturella.

Espetáculo Ícaro
(foto: Fernanda Chemale/Divulgação)

A companhia de teatro mexicana Lagartijas Tiradas al Sol investigou a trajetória da democracia mexicana numa série de 32 espetáculos, intitulada Democracia no México 1965-2015. E, fez parte da série o espetáculo Tijuana, dirigido e estrelado por Gabino Rodríguez, que trouxe a trupe de volta ao Cena Contemporânea.
Do diretor Damián Cervantes, da cia. mexicana Vaca 35, Lo único que necesita una gran actriz partiu de uma experiência emocional em cima do trabalho de Jean Genet, para compor o espetáculo. Os temas abordados no espetáculo são variados, indo de assédio moral à exploração e humilhação. Fonte: Correio Braziliense

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