• segunda-feira , 18 fevereiro 2019

O problema de bicicletas e patinetes: os ciclistas e ‘patineteiros’

É o que se revela com infortúnios de serviços de aluguel de bikes e patinetes, como Yellow e Grin, cada vez mais populares no Brasil

Patinetes: como regularizar? (Caio Guatelli/VEJA)

Se é morador de uma metrópole com serviços de aluguel de bicicletas e (agora um hype) patinetes, como a Yellow e a Grin, já deve ter se deparado com o problema. Falta o mínimo de educação e civilidade para uma boa parcela dos usuários. Em São Paulo, é praxe flagrar bicicletas e patinetes amarelos e verdes abandonados em meio a ruas, em frente à saída de garagens, em rampas para deficientes e em pisos táteis. Também não raro se depara com ciclistas e “patineteiros” apressados em alta velocidade nas calçadas. Tanto que a prefeitura paulistana estuda proibir a circulação de patinetes nesses locais.

Antes que ciclistas e afins venham com acusações, é preciso esclarecer uns pontos. Sou um ciclista. Tenho minha magrela e ando nela com frequência. Gostaria de um dia abandonar de vez o carro e exclusivamente caminhar e pedalar. Tanto que, na última vez em que cogitei trocar de automóvel, abandonei a ideia em favor de uma vida mais sobre a bike.

A questão é que, como motoristas precisam ter bom-senso e respeitar leis, o mesmo deve ocorrer com ciclistas e “patineteiros”. Hoje, não se pode pedalar em calçadas, só em ruas e ciclovias. Só que e se está perigoso demais, cheio de motoristas doidos, na avenida? A alternativa é descer da bike e virar pedestre por um trecho, até chegar a um ponto seguro para subir nela novamente.

Em calçadas, como informa a própria Grin, patinetes têm de respeitar o limite máximo de 6 km/h. Mesmo em ciclovias e na rua, o máximo é de 20 km/h. No entanto, o próprio serviço admite que usuários se excedem. E muito. O comum é flagrar os “patineteiros” em alta velocidade, em qualquer lugar, visto que não existe nenhum tipo de trava no equipamento.

Um colega de redação, Silvio Nascimento, levou recentemente como uma cruzada o empenho de combater a má educação desses em seu bairro, o Itaim. Por lá, flagrou uma penca de irregularidades: bikes e patinetes velozes, parados em frente à garagem de prédios, abandonados no meio da rua, impedindo o acesso de deficientes físicos etc. Em um caso, ele reclamou com um ciclista, que o ameaçou de agressão.

Frente aos problemas, Nascimento contatou tanto a Yellow quanto a Grin. Os serviços pontuaram que orientam os clientes a se comportar e, quando avisados de equipamentos largados por aí, se dirigem ao local e os guardam em lugares apropriados. Porém, não punem os ciclistas e “patineteiros”, de forma alguma.

Disse a este blog Paula Nader, cofundadora da Grin: “Uma vez assisti a um vídeo de Londres quando os carros começaram a se disseminar pela cidade. Era um caos, o ambiente urbano não estava preparado. No caso das bikes e patinetes, também estamos num período de adaptação”. É verdade.

Paula defende que o serviço só será adequado se for bom a “quem usa e quem não usa”. Por isso, ela acha mais adequado um sistema híbrido de distribuição das bicicletas e patinetes. Dessa forma, haveriam pontos fixos para pegar e devolver, e algumas regiões nas quais se poderia simplesmente estacionar tais veículos para deixar para o próximo usar.

Mesmo assim, os problemas persistem. Como não existe punição, as pessoas estão nem aí para as orientações dessas empresas. Fazem simplesmente o que querem.

Por outro lado, proibir seria regressar uns passos no avanço civilizatório. Bikes e patinetes fazem muito bem às cidades, sim. Estimulam moradores a descobrir seus bairros, a serem mais saudáveis etc. Além de, claro, tirar uns carros poluidores das vias, mesmo que por um tempo, e em determinadas situações. O que sempre é positivo. Em suma, promovem a sustentabilidade e o bem-estar.

O que fazer, então? Parar de contar simplesmente com o bom senso dos indivíduos. Assim como as leis de trânsito não se baseiam no caráter de motoristas.

Se Yellow e Grin lotaram São Paulo de bem-vindas bicicletas e patinetes, cabem a esses serviços resolver os problemas advindos dessas novidades. Assim como a Uber, por exemplo, já teve de lidar com diversas dores de cabeça de contornos similares.

Se um ciclista atropela um pedestre usando uma bike amarelinha da Yellow, ele poderia, sim, ser multado e banido do sistema. Se um outro ultrapassa a velocidade máxima no patinete (que tem velocímetro; e esse poderia ser monitorado pelo mesmo app pelo qual se alugam os patinetes), também deveria haver punição.

Se essas empresas sabem bem restringir áreas de uso de seus equipamentos – bicicletas da Yellow não podem ser abandonadas em regiões dos bairros do Morumbi e do Butantã, em São Paulo, por exemplo; sem pagar uma multa por isso ao app –, também conseguiriam monitorar, por GPS ou câmeras embutidas, quando um cliente deixa uma magrela despejada numa rampa para deficientes e que dá acesso a uma calçada.

Em outras palavras, se as inovações tecnológicas proporcionaram as facilidades trazidas com Yellow e Grin, cabem a essas mesmas empresas se apoiarem nas mesmíssimas inovações tecnológicas para mitigar os problemas causados por esses serviços. E qual seria a solução definitiva? A resposta também cabe a quem trouxe a questão à cidade. Mas tem de haver uma resposta.

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