• quarta-feira , 20 fevereiro 2019

Diretores e grupos de teatro reafirmam a vocação artística de Brasília

Mesmo com poucos incentivos, sobem aos palcos para formar plateias e oferecer reflexões sobre contemporaneidades

Há políticas culturais que são interessantes, mas o que acontece é que, na verdade, os políticos estão muito mais preocupados em se manter no poder do que em realmente incentivar a cultura” Humberto Pedrancini
(foto: Claudio Chinaski/Divulgacao)

 

“Manter-se firme” e “conservar-se”. Dois dos verbetes encontrados para o verbo “resistir” no dicionário Houaiss servem para definir o teatro brasiliense. Com tantas intempéries — da falta de espaços a recursos escassos, passando pela dificuldade de formar plateia —, nossos artistas insistem em não sair de cena, seja em companhias, seja em projetos solo, levam as artes cênicas ao Distrito Federal. Nomes como os de Hugo Rodas, Fernando e Adriano Guimarães, Eliane Carneiro, João Antônio, José Regino, Humberto Pedrancini abriram caminhos para tantos outros, como as companhias Andaime, Tripé, Teatro do Instante, Teatro de Açúcar, Sutil Ato, Liquidificador e Udi Grudi e os atores da qualidade de Josuel Junior, Maíra Gadelha, Preto Rezende e muitos outros. É isso mesmo: resistir.
Não é de hoje que o teatro brasiliense luta para sobreviver. “As artes, em geral, e o teatro,  em especial, sempre foram perseguidos por ditaduras e regimes rígidos, porque eles têm medo da nossa atuação. Mas nós resistimos sempre, haja visto o avanço da dramaturgia da época da ditadura militar no país. O simples fato de ir ao teatro significava uma resistência política. Ir ao teatro era revolucionário”, lembra João Antônio, do alto dos seus mais de 60 anos de carreira e muito longe de deixar os palcos e sets de filmagem.

“O simples fato de ir ao teatro significava uma resistência política. Ir ao teatro era revolucionário” João Antônio
(foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)

Professor aposentado da Universidade de Brasília (UnB), João Antônio ressalta que essa resistência candanga dura até os dias de hoje: “Atualmente, apesar de quase todos os nossos espaços públicos estarem fechados, nunca deixamos de produzir, em espaços mínimos ou na rua. E de produzir com qualidade, o que é muito importante.”
Para João Antônio, um dos maiores desafios é a formação de plateia. “O público se renovou e precisamos mudar também, buscando o jovem, a conexão com o jovem”, afirma. A excessiva profissionalização do teatro brasiliense também pode ser um entrave. “Estamos nos profissionalizando rápido demais e deixando o teatro amador de lado. Ele é muito importante na formação de público. É como o futebol de várzea, jogado em qualquer campo ou espaço. Só pode amar o teatro ou o futebol quem os conhece.”
Segunda profissão
Contemporâneo de João Antônio, Humberto Pedrancini faz teatro desde 1973. “O movimento do teatro em Brasília é muito grande, com grupos de qualidade, que investem em pesquisas e novas linguagens, diferentes tendências. Mas tem um problema. Existe muito profissional de direito, mas poucos de fato. Isso porque grande parte tem o teatro como o segundo emprego. Eles querem continuar no palco, na arte, fazem com amor, mas não têm incentivo, não têm como. O movimento para isso começou, mas tem que crescer. Há avanços, grandes retrocessos, mas a gente continua. Nossa briga tem que ser por esse tipo de profissionalização e pela conscientização de que temos que viver sem o pires na mão o tempo todo, e com dignidade.”
Pedrancini sabe que viver de teatro não é fácil. O experiente ator e diretor classifica como “preocupante” essa luta. “Somos dependentes de recursos como o FAC (Fundo de Apoio à Cultura) ou a Lei Rouanet, mas eles precisam de ajustes, de modernização. Há políticas culturais que são interessantes, mas o que acontece é que, na verdade, os políticos estão muito mais preocupados em se manter no poder do que em realmente incentivar a cultura”, completa.

O teatro é classificado por muitos como uma importante arma política. Pedrancini não discorda do poder da arte, mas faz uma ressalva: “O teatro não tem que ser panfletário, ele tem que ser reflexivo. Temos que mostrar a condição humana com uma lente de aumento para, assim, levar à reflexão.”


Gente do palco

(foto: Facebook/Reprodução)

Agrupação Teatral Amacaca (ATA)

Nos mais de 40 anos em que o ator e diretor uruguaio Hugo Rodas mora em Brasília, ele sempre esteve envolvido com o teatro. Em 2009, criou o grupo ATA (Agrupação Teatral Amacaca), definida como “uma orquestra de atores”, em que há diferentes tipos de experimentação da dramaturgia. Desde o início deste ano, o grupo iniciou uma residência no Espaço Cultural Renato Russo, que dará origem à montagem do espetáculo O olho da fechadura, feito inicialmente por Rodas, em 1993, e inspirada em obras de Nelson Rodrigues, além de também trabalhar para remontar Os saltimbancos, peça de 1977.
A escolha por essas montagens é citada pelo diretor como a prova de que o teatro segue em frente. “A juventude hoje pode não ver isso, mas não existe outra forma de fazer teatro que não seja de resistência. Quando fiz Os saltimbancos, foi um momento em plena ditadura e foi um sucesso político e voltará a ser porque a situação atual do país está mais ou menos igual”, define. Para ele, a função do teatro é essa:  “Meu trabalho será constantemente de um teatro comprometido e que tenha a ver com a situação que estamos vivendo”.

Essa postura, para Hugo Rodas, além de ser função do teatro, é um ciclo natural em uma cidade onde faltam espaços culturais. “O problema sempre existiu e está a cada dia pior. Agora recuperamos o (Espaço Cultural) Renato Russo, o que é fantástico, porque estávamos praticamente sem espaços. Se o Teatro Sesc fechasse, acabava. Você pode fazer na rua, busquei espaços como Zoológico e Torre de TV, mas se a gente realmente quer sobreviver de teatro, uma coisa que é tremendamente difícil, não dá. O teatro de rua passou a ser uma grande palavra, uma grande ideia, que não executamos pelas dificuldades e pela necessidade de sobreviver e de ter uma profissão como todo mundo, que é remunerada”, analisa.

(foto: Daniel Fama/Divulgação)

Josuel Junior
Ator e produtor de teatro — especialmente fora do Plano Piloto — Josuel Junior aponta uma curiosidade: o protagonismo, segundo ele, mudou de lado. “Com muitos espaços fechados no Plano Piloto, o olhar se virou para a periferia, para grupos e espaços de cidades como Gama, Recanto das Emas, Samambaia. Eles aprenderam a fazer projetos, e os espetáculos começaram a ser aprovados”, afirma Josuel, que, durante 10 anos, fez parte do grupo Fábrica de Teatro, e hoje optou por seguir carreira solo. Ele cita como exemplo uma residência no Espaço H2O, no Recanto das Emas, que recebeu grupos do DF e de outros estados, como São Paulo. “Ver um local como o H20 ter esse reconhecimento é incrível”, comemora.

Outra mudança citada por Josuel é que o teatro brasiliense da contemporaneidade, muito calcado em grupos e companhias, não quer mais gerar polêmica apenas pela polêmica. “Grupos como o Tripé e o Liquidificador têm uma consciência muito maior, com acidez e fazendo mesmo uma contracultura, um teatro mais antenado com o nosso tempo, quando os governos menosprezam a cultura.”

(foto: Duda Affonso/Divulgação – 1/8/18)

Grupo Liquidificador
Criado há oito anos, o grupo Liquidificador nasceu com a difícil missão de levar ao público uma pesquisa de linguagens teatrais, com estéticas que conversem a todo momento com a realidade. “Esse é o teatro do nosso tempo”, define a atriz e diretora Fernanda Alpino, uma das fundadoras da companhia. Ela explica que essa pesquisa de linguagem é um artifício que o grupo usa para levar pessoas que nem sempre iriam ao teatro, aos espetáculos.
“Brasília é uma cidade nova, em formação. Pela nossa linguagem fazemos ligação com outras artes e isso traz um público novo. Em Ultra-romântico, por exemplo, fizemos uma peça-festa. A plateia ia para a festa, mas assistia à peça e voltava ao teatro depois. Em Janta, atingimos um público mais alternativo, ligado à gastronomia”, explica Fernanda, que avisa: em 2019 o Liquidificador deve estrear o primeiro texto de teatro convencional.

Há quem desaprove essa interlocução entre as artes, mas Fernanda justifica: “As coisas mudam o tempo todo e rápido. Rápido até demais, em alguns casos. O teatro precisa, para sobreviver, se reinventar.”

(foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press – 22/2/18)

Senta Que o Leão é Manso
Homenageado no ano passado no Prêmio Sesc de Teatro Candango, Preto Rezende, 59 anos, é o nome e sobrenome da resistência do teatro em Planaltina. Ele, que foi aluno de Dulcina de Moraes, é um dos integrantes e fundador do grupo Senta Que o Leão É Manso, criado na década de 1980, além de ser o responsável pelo Mini Teatro Lieta de Ló, casa do grupo e espaço cultural de Planaltina.
“O nosso grupo é ativo na cidade. Todo ano a gente faz oficinas para receber novos integrantes e utilizamos esse espaço para tudo, além de emprestar para outras companhias. Na realidade, a maior dificuldade para quem faz teatro fora do Plano Piloto é a falta de apoio”, afirma o ator e professor. Ele criou em 2011 o espaço como uma forma de acabar com parte do problema.
Preto avalia que, apesar de o FAC ter empoderado muitos grupos e projetos, não é suficiente. “Acho que precisava de um apoio maior do governo. Não é falta de público, porque público tem. Muitos grupos fazem teatro de rua ou onde dá pra fazer, em auditórios improvisados. O que falta é ação do governo. A arte tem que ter um apoio”, diz.

(foto: Marcelo Dischinger/Divulgação)

Udi Grudi

Em atividade desde 1982, o Circo Udi Grudi é um dos grupos de teatro mais influentes da capital. Com peças de sucesso mundial, como O cano, que ganhou o prêmio The Herald Angel Award no Festival de Edimburgo (Escócia), o maior festival de artes do mundo, o grupo utiliza os palcos para provocar reflexões a respeito dos tempos em que a sociedade vive.
Os espetáculos do grupo misturam a essência circense com posicionamentos políticos, como no espetáculo O ovo, que discorre sobre a fome e a escassez de comida de forma muito forte. “Tudo o que fazemos é político, desde o reaproveitamento dos materiais que utilizamos nas peças até os discursos de exclusão, fome e escassez”, conta o ator Luciano Porto.

A companhia vê que a situação das artes, principalmente do teatro, está delicada. “A gente terminou um processo que durou alguns anos, uma certa mordomia com os patrocínios que faziam os espetáculos saírem de graça. Nesses tempos  em que estamos, não temos certeza do que virá. Com a extinção do Ministério da Cultura, por mais que aqui em Brasília estejamos resguardados, por enquanto, com o apoio da FAC, que é lei, mas a nível federal não se sabe o que vai acontecer, por isso, precisamos cada vez mais do respeitável público”, diz.

(foto: Humberto Araujo/Divulgaçao – 29/1/16)

Esquadrão da Vida
Esquadrão da Vida, grupo de teatro de rua criado pelo notório Ary Pára-Raios, em 1979, resiste nas ruas de Brasília desde o nascimento. O nome da companhia surge em oposição aos famigerados esquadrões da morte que agiam na segunda metade do século 20 em várias
regiões do país.
Maíra Oliveira, filha de Ary e hoje responsável pelo grupo, vê que nos dias atuais os palcos e as ruas ainda são espaços de resistência e, para ela, não é somente o fazer teatro, mas ir ao teatro também é resistir. “O teatro proporciona alegria, afeto, formas de pensar em si e nos outros”, conta a atriz e diretora. “Hoje em dia, a sensibilidade e a empatia não são mais valorizadas pelas pessoas, e a arte exige isso”, completa.
A diretora conta que, quando perguntam o que ela faz e a resposta é que ela é atriz de teatro de rua, sempre uma mesma pergunta vem à tona: “Tá, mas e o que você faz para viver?”. “Enquanto não encararmos o teatro, a atuação, como uma profissão, não vamos pra frente”, afirma.
Maíra, que respira arte, sente imensa tristeza, mesmo sendo uma artista de teatro de rua, ao ver os espaço públicos fechados há tantos anos. “As pessoas têm que entender que, por exemplo, o Teatro Nacional é da sociedade, é do público. Não pode ficar fechado esse tempo todo. Temos que ter discussões sobre como podemos ocupar esses espaços que não estão em funcionamento e são símbolos da cidade”, enuncia. “Alguma coisa está errada em como a sociedade encara o teatro”.

(foto: Victor de Jesus/Divulgação – 22/8/17 )

 

Andaime Cia. de Teatro
Criada em 2007, na Universidade de Brasília (UnB), a Andaime Cia. de Teatro tem uma sede física e permanente que utiliza para ensaiar, reunir-se e compartilhar pensamentos e atividades. “A Andaime também busca a cidade, ocupa a rua, como forma de estreitar as relações com o público. É desta forma que fomentamos a formação de plateia, apresentando a obra no lugar cotidiano, mostrando, portanto, as produções do DF para pessoas de diferentes locais, classes e idades.”
Com o novo espetáculo Saci é uma peça! e também com o Carnaval silencioso, que faz parte do calendário de eventos da capital, o grupo busca estimular o hábito do público de ir ao teatro e mantém de pé os sonhos teatrais da cidade.

“Resistir no teatro é um ato permanente, independentemente de governo. A atual conjuntura nos põe à prova e fará com que nós, trabalhadores da cultura, nos reinventemos e, dentro disso, pensamentos de reflexão contemporânea estarão em cena”, destaca nota da companhia.

(foto: Diego Bresani/Divulgação – 31/8/16)

Cia. Teatro de Açúcar
Com 12 anos de estrada e 12 espetáculos diferentes, a Cia. Teatro de Açúcar trabalha com apresentações locais e desbrava o mundo com temporadas internacionais. A agenda do grupo, formada por peças, oficinas, cursos, leituras, traduções e diversos projetos artísticos, além da produção de espetáculos, é instituída com prioridade na Europa, local onde o retorno é maior, mas também ocorre em terras brasileiras.
“A ‘exportação’ das produções foi a principal estratégia de sobrevivência da companhia. Infelizmente, ainda não conseguimos despertar nos teatros e festivais nacionais o mesmo interesse que importantes instituições europeias têm demonstrado pelo nosso trabalho. Mas ainda seguimos insistindo no trabalho para circular com os espetáculos também no Brasil”, destaca, por e-mail, o grupo.
A atual peça da companhia, Naufragé(s), está sendo realizada na França e na Espanha, mas Brasília não é esquecida pelo Teatro de Açúcar.
“Infelizmente, as dificuldades não se resumem às questões políticas. Os artistas da cidade vêm trabalhando há muito tempo na formação de plateia, mas a falta de apoio dos teatros, que não investem em ações de divulgação e formação, dificulta nosso trabalho”, afirmam Gabriel F. e Marco Michelângelo. “As burocracias existem, mas o teatro em Brasília resiste e se amplifica com o surgimento de grupos novos”, pontuam.

(foto: Diego Bresani/Divulgação)

Grupo Sutil Ato

“Não consigo pensar no mercado cultural sem falar em resistência, persistência e existência, que são palavras um pouco irmãs e primãs de quem é artista no Brasil”. É assim que o ator e diretor Jonathan Andrade define a atuação do Grupo Sutil Ato, que atua na cidade profissionalmente desde 2006 e conseguiu se destacar fora do quadradinho com o espetáculo Autópsia, que rodou por cidades como Belo Horizonte e Goiânia.
Persistente e forte na cena local, o grupo luta contra várias adversidades, como a falta de fomento e patrocínios — apesar de acreditar que em Brasília essa dificuldade é menos acentuada do que em outros locais do Brasil –, a ausência de espaços públicos e até a falta de formação de público. “É importante ressaltar que Brasília é uma cidade diferenciada, que não sofreu o impacto de outras cidades. Mas a vida de grupo é essa: a resistência. O estado precisa ser cutucado e a gente precisa inflamar essa questão. Uma cidade com cultura é fluída, poderosíssima. Mas o DNA da arte é esse, insistir e colocar a cara na rua”, analisa Andrade.

Até por isso, o Grupo Sutil Ato desde a sua formação aposta em oficinas e workshops. “É um momento de legitimar e apostar em várias questões, na divulgação do trabalho, na pesquisa que está sendo gerada ali, nos novos olhares, nas outras comunidades. É uma forma de democratizar o conhecimento gerado e fomentar a inserção de produtos culturais”, completa o diretor.  Fonte: Correio Braziliense

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