• quarta-feira , 23 janeiro 2019

Cultura negra é valorizada por marcas que trabalham com moda em Brasília

Diáspora009 e Mercado Étnico usam como referência a cultura e as religiões africanas. Marcas expõe produtos nesta segunda e terça-feira, na Caixa Cultural.

Na capital do país, homens e mulheres negras passam a assumir o protagonismo de quem cria e serve de inspiração para o mundo da moda. Baseados na cultura e nas tradições africanas eles trabalham com o que chamam de “moda com conceito”.

“Cada roupa é um discurso, é o corpo-manifesto”, explica a designer Lia Maria.

É ela a responsável pela criação da Diáspora009, que surgiu em agosto do ano passado. Nos cabides da marca brasiliense, as roupas “são como um manto que exalta a ancestralidade africana e negritude brasileira e os tecidos têm status de obra de arte”.

Lia Maria, criadora da marca brasiliense Diáspora009, veste roupa desenhada com tecidos e estamparia africana — Foto: Diáspora009/Divulgação

“A gente vem de uma construção de diáspora em que a escravidão sempre foi central no discurso de quem são os negros, uma visão vitimizadora. Mas nós somos realeza, reis e rainhas africanos”, afirma a designer.

Partindo deste princípio, a marca criou uma coleção que insere pedrarias nas estampas dos tecidos africanos. As roupas serão exibidas em primeira mão em um desfile na Caixa Cultural, às 20h desta terça-feira (20), quando se comemora o Dia da Consciência Negra (veja detalhes abaixo).

Coleção de moda da marca brasiliense Diáspora009 — Foto: Diáspora009/Divulgação

Coleção de moda da marca brasiliense Diáspora009

As roupas de Lia Maria já conquistaram outras regiões do país e também participaram de exposições. Em outubro, a estilista esteve em Miami com o artista plástico Josafá Neves para a inauguração da exposição “Visceral Art”. Lá ela mostrou peças criadas com tecidos estampados pelo artista.

Ocupação Baobá: veja programação

Grupo Gongar, de Pernambuco  — Foto: Joelson SouzaDivulgação

Grupo Gongar, de Pernambuco

A Diáspora009 e outras oito marcas do universo negro vão expor os produtos na “Ocupação Baobá”, entre esta segunda-feira (19) e terça (20), na Caixa Cultural. São roupas, acessórios, artigos de decoração, livros e artesanato.

Além do desfile da marca Diáspora009 e da feira de produtos locais, a “Ocupação Baobá” vai oferecer, nesta segunda-feira (19), uma oficina de percussão sobre toques tradicionais na Nação Xambá. A aula começa às 19h30 e é de graça.

Na terça (20), haverá uma apresentação gratuita do Tambor de Crioula de Seu Teodoro às 18h. O evento se encerra às 20h com o show “Ogum Iê!”, do grupo Bongar, de Pernambuco – para este, a meia-entrada custa R$ 15.

A apresentação conta com a participação da moçambicana Lenna Bahule e presta homenagem ao orixá Ogum. Na mitologia iorubana, ele é o deus guerreiro que domina a tecnologia de criar ferramentas a partir do ferro e é responsável por abrir caminhos.

Conheça outras marcas

Roupas da marca brasiliense Mercado Étnico — Foto: Mercado Étnico/Divulgação

Roupas da marca brasiliense Mercado Étnico

  • Mercado Étnico

Para a criadora de uma outra marca, a Mercado Étnico, as roupas e acessórios que celebram a cultura e as tradições africanas ganham espaço porque as pessoas querem demonstrar o orgulho que sentem pelas raizes.

“Você não encontra esse tipo de produto no mercado tradicional”, diz Aisha Lembá Mueji. Ela explica que a Mercado Étnico surgiu em 2013 a partir de uma necessidade pessoal e logo foi adotada por outras mulheres negras.

“Eu usava muito turbante, mas quase não encontrava para vender. Quando achava, não era como queria. Então, passei a fabricar.”

Camisetas estampadas da marca brasiliense Mercado Étnico — Foto: Mercado Étnico/Divulgação

Camisetas estampadas da marca brasiliense Mercado Étnico

Em pouco tempo, a Mercado Étnico passou vender camisetas com estampas que fazem referência ao empoderamento da mulher negra e às religiões de matriz africana. São termos de saudação aos orixás em angola e iorubá – línguas usadas no candomblé.

“Nas lojas colaborativas, por exemplo, nosso produto acaba sendo visto como exótico e não como algo que é consumido por muita gente. Então, criamos um comércio à parte.”

Mulher afro-empreendedoras durante o Festival Agô – Samba & Ancestralidade  — Foto: Festival Agô/Divulgação

Mulher afro-empreendedoras durante o Festival Agô

  • Ubuntu

As criadoras da marca Ubuntu, Mary France e a filha, Ana Carolina, começaram o negócio para complementar a renda. Hoje, os colares, pulseiras, brincos e jogos de mesa são a principal dedicação da duas.

A base para todas as peças são os tecidos africanos. Uma parte deles vem de São Paulo e a outra, direto da origem.

“Meu cunhado trabalhou na embaixada do Brasil na Tanzânia e me trouxe tecidos de alguns países por lá.”

Recentemente, a Ubuntu começou a revender bolsas e tênis de uma marca de Criciúma, em Santa Catarina, que também trabalha com a estamparia africana.

Apropriação cultural

As criadoras das marcas Diáspora009, Mercado Étnico e Ubuntu afirmam que, embora os produtos sejam inspirados na cultura africana e desenvolvidos majoritariamente para as mulheres negras, eles podem ser usados por quem se sentir à vontade.

Reconhecimento e respeito são palavras chave. “O limite é sempre o bom senso”, diz Lia Maria, da Diáspora009.

“Vestir uma roupa afro não faz uma pessoa racista deixar de ser.”

“Me sinto à vontade de ver pessoas brancas usando roupas afro assim como me sinto à vontade de ter referências europeias. Isso é a diáspora, a dispersão, a possibilidade de construir novos contextos.”

Lia Maria, criadora da marca brasiliense Diáspora009, veste roupa desenhada com tecidos e estamparia africana — Foto: Diáspora009/Divulgação

Lia Maria, criadora da marca brasiliense Diáspora009, veste roupa desenhada com tecidos e estamparia africana

Para Mary France, da Ubuntu, o uso de roupas e acessórios com elementos africanos requer o mínimo de conhecimento. “A questão da apropriação cultural começou com o turbante. Muitas mulheres não têm noção do significado dele”, afirma.

“Pra gente ele [turbante] é uma coroa. Não é um adereço pra esconder cabelo sujo.”

“Precisamos fazer as pazes com a ancestralidade e desconstruir essa estereotipia, que não reconhece as nossas identidades, para que possamos rever as nossas relações raciais”, completa Lia.

Veja Também