Mais de 13,5 mil condutores foram autuados por trafegar acima de 50% do que é permitido na via, no primeiro semestre do ano. Índice supera o registrado no mesmo período de 2019, antes da pandemia. Desrespeito à faixa de pedestre é outra preocupação

Em 2015, Carina Araújo foi atropelada por um motociclista em uma faixa de pedestre em Águas Claras. Hoje, ela ainda tem receio de atravessar a rua – (crédito: Ed Alves/CB/D.A Press).

Entre janeiro e junho de 2021, o Distrito Federal viu crescer o número de infrações de trânsito envolvendo travessia de pedestres e excesso de velocidade. Nos seis primeiros meses do ano passado, o Departamento de Trânsito do Distrito Federal (Detran-DF) multou 10.881 motoristas por trafegar em velocidade 50% superior à permitida na via. No último semestre, foram 13.520 autuações, aumento de 24,25% das ocorrências. O índice é maior do que o registrado no mesmo período de 2019, antes da pandemia do novo coronavírus, quando houve 13.007 infrações desse tipo de infração — 4% inferiores aos números deste ano.

Levantamento do Detran-DF mostra, também, que flagrantes de desrespeito à faixa de pedestres subiram 32% na comparação ao primeiro semestre de 2020 — 4.466 ocorrências contra 3.388, do ano passado. Quando comparado ao mesmo período de 2019, em que foram registrados 7.775 casos, este ano, o DF teve redução de 42% nesse índice.

Mais circulação de pessoas nas ruas do DF em 2021, por conta do relaxamento das medidas de segurança contra a pandemia da covid-19, é um dos fatores que levaram ao crescimento dos casos. No entanto, o diretor-geral do Detran-DF, Zélio Maia, ressalta que houve aumento nessas infrações de trânsito mesmo na comparação com os números de 2019.

Para ele, a disposição territorial e a organização urbana da capital federal têm influência no modo como as pessoas se comportam no trânsito. “Em Brasília, as avenidas são largas e com fluidez, pela pouca quantidade de semáforos, e o motorista pode desenvolver altas velocidades. Se não houver consciência e fiscalização efetiva, as pessoas abusam. As ruas em Brasília convidam ao excesso de velocidade”, reflete o diretor.

Zélio Maia admite que as faixas de pedestres da capital federal precisam de reformas. “Estamos na fase de tomada de preços e avaliação de custos para implementar iluminação mais ostensiva nas faixas de pedestres. O projeto será chamado Luz na Faixa”, adianta. Outra medida do departamento para a diminuição da violência no trânsito é inserir mais questões sobre ciclistas nos exames de habilitação de novos motoristas.

Excesso

Autora das primeiras reportagens que originaram a campanha Paz no Trânsito, iniciativa do Correio lançada em agosto de 1996, Ana Júlia Pinheiro é defensora das medidas de controle de velocidade. Ela atua na ONG Rodas da Paz, que trabalha pela promoção da mobilidade urbana sustentável, plural e pacífica. “A única forma de deixar bicicletas e pedestres em segurança no trânsito é diminuir a velocidade dos carros. O motorista que trafega rápido não consegue enxergar o pedestre a uma distância de segurança para frear a tempo. O que justifica uma capital de 60 anos ainda utilizar vias a 80 km/h no meio da cidade?”, questiona Ana Júlia, referindo-se ao Eixo Rodoviário Norte e Sul, o Eixão. “Faço um convite para o motorista que acha natural trafegar a essa velocidade: pegue uma bicicleta”, continua a ativista. “Defender a redução da velocidade no trânsito é devolver a cidade às pessoas. Essa discussão precisa ser feita agora”, cobra.

Carina Araújo, 38 anos, foi atropelada por um motociclista em 2015, enquanto atravessava a faixa de pedestres. Mesmo depois de fazer o sinal de vida e dois carros pararem, o condutor da moto não freou e arrastou a moradora de Águas Claras pelo asfalto. O motorista fugiu sem prestar socorro. “Passei a ficar mais preocupada com a faixa, só passo quando todos os carros já pararam. Também me assusto com frequência com freadas”, conta a bancária, que carrega as cicatrizes das queimaduras que teve na perna e no braço direito. “Foi mais ou menos um ano (de recuperação). A complicação maior foi o estresse (do atropelamento), que acabou agravando uma condição neurológica que eu possuía, a esclerose múltipla. Devido ao trauma, tive um surto e fiquei sem o movimento da perna por uns seis meses”, lembra Carina, que defende atenção redobrada aos pedestres. “No trânsito, é o mais exposto. Respeitar a faixa é um gesto de educação e gentileza”, destaca.

A professora Michelle Andrade, coordenadora do programa de pós-graduação em transportes do Departamento de Engenharia Civil e Ambiental da Universidade de Brasília (UnB), avalia que o pedestre também precisa se conscientizar sobre os perigos do trânsito. Para a especialista, o comportamento de quem anda pelas ruas é um fator que impacta na segurança dele. “Alguns acidentes acontecem pela falta de dimensionamento das situações. Observo que os mais jovens, principalmente, têm optado por não dirigir e acabam não tendo noção da dinâmica de um veículo. Acham que qualquer carro em movimento tem condições de parar, não importa a distância. O pedestre precisa participar da própria segurança. A faixa não está ali para ser usada livremente. O pedestre não pode deixar a atenção de lado e afirmar isso não significa tirar a responsabilidade do motorista”, observa a professora.

Irresponsabilidade

Na última sexta-feira, Sheila Almeida de Mendonça de Jesus, 42 anos, morreu atropelada enquanto atravessava uma faixa de pedestres em Taguatinga, ao lado do marido e da filha — que não foram atingidos. O motorista, identificado apenas como Lucas, de 23 anos, estava bêbado, em alta velocidade e não prestou socorro à vítima, que faleceu no local. “Ele tirou a vida de uma pessoa inocente, na faixa de pedestres, lugar que todos os motoristas deveriam respeitar. Não tem desculpas, havia outros carros parados (na faixa). Ele não parou porque não quis. Minha família inteira está sofrendo por conta da irresponsabilidade de uma pessoa bêbada”, protesta a sobrinha de Sheila, Maria Antônia Mendonça, 25 anos. A jovem conhece Lucas. “Ele é ex-namorado de uma amiga minha e já frequentou minha casa algumas vezes, há muito tempo. Não tínhamos mais contato”, explica a designer de unhas. “Se não conhecêssemos o motorista, não teríamos tanta raiva. Eu não sei explicar o sentimento”, confessa.

A moradora de Taguatinga Centro conhecia Lucas a ponto de saber do hábito do homem de dirigir depois de beber. “Não foi a primeira vez que ele fez isso. Qualquer pessoa que ingere bebida alcoólica e pega um carro em seguida precisa ser mais responsável. Lucas poderia, pelo menos, ter parado e prestado socorro à minha tia. Talvez ela estivesse viva”, lamenta Maria Antônia.

Multas aplicadas

2021 (jan a jun)
Total: 673.342 multas
Até 20% a mais do que a velocidade da via: 588.539
Entre 20 e 50%: 71.283
Acima de 50%: 13.520

2020 (jan a jun)
Total: 720.205 multas
Até 20%: 638.905
Entre 20% e 50%: 70.419
Acima de 50%: 10.881

2019 (jan a jun)
Total: 755.513 multas
Até 20%: 667.557
Entre 20% e 50%: 74.949
Acima de 50%: 13.007

Desrespeito à faixa de pedestres
2021 (jan a jun): 4.466 multas
2020 (jan a jun): 3.388 multas
2019 (jan a jun): 7.775 multas
Fonte: Detran-DF

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