• quarta-feira , 20 fevereiro 2019

Compliance: uma agenda para o Brasil

Mais do que fortalecer a credibilidade do país, as políticas de integridade corporativa despontam como ferramentas de gestão entre as empresas brasileiras

Moro: não há dúvidas de que a operação Lava-Jato e tantas outras investigações mudaram a maneira de o país lidar com a corrupção (Paulo Whitaker/Reuters)

No começo do ano passado, participei de reuniões no Brasil com agentes do FBI e do Departamento de Justiça dos Estados Unidos e me chamou a atenção uma constatação que eles fizeram: o Brasil está mudando o modo como o mundo olha os negócios e a corrupção. Certamente teríamos preferido não ter motivos para ser uma referência global em escândalos tão disseminados em vários escalões do governo e de alguns setores econômicos. Mas não há dúvidas de que a operação Lava-Jato e as tantas outras investigações mudaram a maneira de o país lidar com a corrupção e criaram um exemplo de como governos podem enfrentar grandes esquemas de fraude. A Lei Anticorrupção (nº 12.846/2013) e a de Governança em Estatais (nº 13.303/2016) são exemplos de resultados significativos da sofisticação e regulamentação da prática no país.O combate à corrupção, no entanto, não é apenas responsabilidade do governo. Cabe a nós, sociedade e setor privado, criarmos uma nova cultura de fazer negócios e fortalecer as políticas de integridade. A ICC, desde 1919, é pioneira no desenvolvimento de códigos e normas sobre ética, anticorrupção e defesa da responsabilidade corporativa. Outras entidades e associações, mundo afora, também desenvolveram suas ferramentas. Essa discussão está na agenda de executivos e empresários.Um dos mais recentes estudos sobre o tema, lançado em dezembro, traz uma importante reflexão. Foram ouvidas mais de 200 empresas de vários setores, com faturamento maior do que 50 milhões de reais. O objetivo era avaliar a aderência de 30 práticas de compliance (entre práticas consideradas essenciais e outras mais sofisticadas). De forma geral, as empresas apresentaram evolução consistente. Entre 2012 e 2014, apenas 24% aderiram a 15 dessas práticas e, entre 2015 e 2017, esse percentual chegou a 46%, com a perspectiva de alcançar 65% até 2020.

Apesar dos avanços, ainda há muito para ser feito, especialmente em relação às pequenas e médias empresas (PMEs). Aquelas que faturam menos de 100 milhões de reais ao ano ainda não priorizaram a pauta em suas agendas, com apenas 20% das respondentes indicando adoção de mais de 15 das 30 práticas avaliadas. O número é muito mais expressivo se olharmos a porcentagem de adoção nas empresas com faturamento superior a 100 milhões: 53%.Se realmente quisermos virar a página e crescer como um país mais transparente e com forte governança, precisamos qualificar toda a cadeia produtiva brasileira. Não importa o tamanho da empresa, não importa a região onde ela atua.

O esforço deve ser contínuo e fortalecerá a credibilidade do nosso país e também a estrutura e a gestão das companhias, trazendo, inclusive, novas oportunidades de negócio. Não à toa, 84% das empresas respondentes acreditam na correlação entre a adoção de práticas de integridade e impacto positivo no resultado financeiro. Este é o caminho: a integridade passa a ser muito mais do que uma ferramenta. É um ativo que gera valor às organizações, tornando-se peça fundamental da nossa cultura de negócios.  Fonte: Portal Exame

 

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