• domingo , 27 Maio 2018

Companhias compensam a falta de teatro na cidade criando o próprio espaço

Grupos brasilienses investem em espaços culturais para reunir e levar ao público a produção criativa da cidade

 

Estabelecer novos espaços de criação na cidade e fortalecer o encontro entre artistas e moradores. São esses alguns dos principais objetivos de espaços culturais independentes de Brasília. A falta de grandes teatros e de iniciativas públicas não intimida grupos brasilienses empenhados na circulação da produção criativa do Distrito Federal. Espaços como a Casa dos 4, o Coletivo Janela e o Escambo se consolidam como importantes meios de expansão artística local. O objetivo é movimentar criativamente a cidade e seus ocupantes.

Para garantir a manutenção e sustentabilidade do espaço, a Casa dos 4, na Asa Norte, conta com fontes de renda diversificadas. As oficinas permanentes de teatro adulto e infantil, as aulas temporárias conduzidas por diferentes artistas da cidade, a área de coworking artístico, o espaço para ensaios e as apresentações de espetáculo dão conta da programação. Quem comanda as produções é o ator e jornalista Morillo Carvalho, ao lado de Alexandre Ribondi, Luísa Marillac e Elisa Mattos.

Morillo lembra que é nos espaços independentes que a experimentação fica mais livre para acontecer e a cadeia produtiva se oxigena e se renova com essa dinâmica. “É a cara do nosso teatro desde os primórdios: um teatro artesanal e que cria, dia após dia, a própria identidade — e identidade, sabemos, tem tudo a ver com as condições em que a obra começa e se desenvolve”, destaca o ator.

O espaço se torna vivo pela riqueza e variedade de seus frequentadores. Ensaios, oficinas e apresentações se misturam no local, que abriga pequenas exposições e está criando também uma biblioteca de artes. “A conquista de público constante e a falta de incentivo permanecem como desafios árduos. Mas somos uma cidade pulsante e criativa. Nos apoiamos e sobrevivemos”, lembra Morillo. A Casa promove ainda exibições de filmes seguidos de debates.

Novos caminhos

O Coletivo Janela inaugurou em 2018 movimentado espaço na quadra 205, na Asa Norte. Reunindo diferentes grupos da cidade, com estéticas e gêneros diversos, a iniciativa pretende tornar o local um eficiente ponto de encontro e criação para o teatro na capital. O coletivo é a união dos grupos: Liquidificador, S.A.I, Novos Candangos e Estúdio Janela. Apresentações, ensaios e atividades de formação estão dentro da proposta.

A principal força que impulsionou a criação do local foi a necessidade coletiva de um espaço eficiente para realizar ensaios, aulas e criações. Com a diminuição das alternativas culturais em Brasília, muitos grupos se encontram sem lugar para dar vazão às ideias criativas.

“Com toda certeza, a diminuição de espaços afeta a produção cultural da cidade, são muitos lugares fechados que eram importantes pontos de formação e realização. Por isso, a necessidade de criar espaços alternativos para que a produção continue”, destaca a atriz e produtora Nina Albuquerque, uma das integrantes do coletivo. O espaço se mantém com a contribuição financeira dos próprios grupos que o formam.

“Brasília, apesar de ser uma cidade setorizada, tem vivido um momento em que se mescla a convivência com atividades diferentes das já especificadas para aquele setor”, destaca a atriz. Sendo assim, a multiplicação de espaços culturais se encaixa perfeitamente com as necessidades da população de diferentes regiões do DF em seu momento atual.

Para ela, além da movimentação independente, uma importante solução para profissionalizar a cultura do DF seria a abertura dos espaços que se encontram fechados e a manutenção dos locais que estão em funcionamento, com uma estrutura planejada e eficaz. Um mercado cultural em movimento gera capital financeiro para a própria cidade em para a indústria criativa e, quando funcionando a pleno vapor, colabora com a identificação cultural de seus moradores.

É importante lembrar que não só o Plano Piloto tem criado espaços independentes. Diferentes regiões administrativas investem em polos culturais e fazem fluir suas produções. Locais conhecidos como a Casa Frida, em São Sebastião, e o Espaço Imaginário Cultural, em Samambaia, movimentam a cultura para além das linhas planejadas do Plano. O mais recente deles é o Escambo, em Sobradinho.

Fora do plano

O espaço cultural Escambo surgiu da vontade de ter um porto seguro para os trabalhos da companhia teatral e inicia seus trabalhos em 2018. A partir dessa vontade, o grupo criou a sede que promete movimentar a cena da região com teatro, dança, exposições, aulas de línguas e espetáculos. A atriz e professora de teatro Letícia Souza conta que a ideia é expandir a produção artística por meio do envolvimento com outras linguagens, possibilitando que um público maior e mais diverso tenha acesso às produções.

Para ela, o fechamento de importantes espaços de cultura do DF se reflete diretamente na produção local, que busca viabilizar seu crescimento com alternativas próprias. “A manutenção desses lugares deveria ser prioridade, bem como uma programação rica para a população. Isso se complementa aos espaços independentes, ampliando o acesso”, destaca Letícia. Enquanto isso, o Escambo pretende se firmar como ponto de encontro artístico em Sobradinho.

Os novos espaços culturais da cidade confirmam uma tendência multicultural que se desenvolve em Brasília, onde seus artistas aprendem a produzir e administrar as próprias criações e construir os espaços de que precisam. A característica colabora para a diversidade produtora de cada grupo, mas lembra o fato de que a cidade ainda tem muito o que aprender na profissionalização da produção artística. Enquanto isso, as iniciativas independentes ocupam novos espaços e expandem a criação para além dos modelos tradicionais.

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