• quinta-feira , 14 dezembro 2017

Brasilienses criam sistemas e aplicativos para enfrentar crise hídrica no DF

Bombeiro desenvolveu sistema que armazena água de máquinas de lavar roupa para reúso. Estudantes da UnB elaboraram aplicativo para melhorar uso da água; desde o início do ano, capital enfrenta racionamento.

Desde que o Distrito Federal passou a enfrentar a crise hídrica mais severa de sua história, ideias para tentar driblar o consumo de água começaram a pipocar na cabeça dos brasilienses. No início do ano, os moradores foram submetidos ao rodízio de água e, hoje, vivem à sombra de um racionamento de 48 horas consecutivas. Para ajudar a reverter esse cenário, estudantes e profissionais da capital desenvolveram sistemas que ajudam a controlar a quantidade de água usada nas residências.

Entre as iniciativas, está um sistema pensado pelo bombeiro militar Josemar Jesus de Souza. Ele aproveitou um espaço no quarto da filha, criou um pequeno laboratório e arquitetou um aparelho para ajudar as pessoas que armazenam a água reaproveitada das máquinas de lavar roupas.

Na prática, o dispositivo, chamado de “EconoLav” estoca automaticamente a água do segundo ciclo de lavagem – que seria descartada – em um reservatório. O volume do recipiente, então, retorna ao aparelho, também de forma automática, quando se inicia uma nova operação. O mecanismo, de acordo com o bombeiro, possibilita a economia de 50% de toda a água usada no processo – cerca de 70 a 100 litros.

Detalhe do ‘EconoLav’, sistema criado por bombeiro do DF que ajuda a economizar água durante ciclo da máquina de lavar roupas (Foto: Arquivo pessoal )

“Muitas pessoas costumam pegar a água do amaciante para reusá-la nas etapas seguintes. A placa de circuito e os acessórios que desenvolvi automatizam esse processo que já é feito de forma manual”, explicou Souza.

Elaborado logo nos primeiros meses de implementação do racionamento de água no DF, o sistema já passou por cinco revisões e foi instalado em quatro residências. “Além da conta de água mais barata e da economia, a rotina também muda. O sistema tira a preocupação de quem tem que lidar e até mesmo levantar um reservatório de até 100 litros”, disse o bombeiro, que também é técnico em eletrônica.

“O sistema que eu desenvolvi é uma solução para o que todo mundo já está usando e fazendo.”

Souza protocolou no Instituto Nacional da Propriedade Intelectual (Inpi) o pedido para patentear o dispositivo. Futuramente, o bombeiro quer comercializar a invenção. O custo de produção foi orçado em R$ 350, e o aparelho é composto por uma central eletrônica de gerenciamento, um reservatório, uma régua de aferição de nível, uma bomba de reabastecimento e dois registros hidráulicos.

Hidrômetro ‘inteligente’

Além da ideia do bombeiro do Distrito Federal, dois estudantes de engenharia da computação da Universidade de Brasília (UnB) desenvolveram um protótipo de um aplicativo, apelidado de Stillabunt, capaz de armazenar informações sobre a qualidade e o consumo da água em residências e prédios comerciais. O projeto foi elaborado pelos estudantes de Eduardo Calil e Matheus Veleci.

Os futuros engenheiros explicam que a partir de um equipamento instalado próximo ao principal cano das casas poderia ser feita a medição do fluxo, da temperatura e do pH da água. Uma placa eletrônica wireless – rede sem fio – conectada, então, receberia os dados e os enviaria, a cada minuto, para uma plataforma na internet, que funcionaria como uma espécie de “hidrômetro inteligente”.

“Com certeza, a crise hídrica no DF foi a nossa principal motivação e inspiração para o protótipo”, disse Eduardo Calil, que está no nono semestre do curso de engenharia da computação.

Os estudantes de engenharia da computação da UnB Eduardo Calil e Matheus Veleci desenvolveram protótipo de aplicativo, que armazena informações sobre a qualidade e o consumo da água em residências e prédios comerciais (Foto: Júlio Minasi/Secom UnB)

Os estudantes de engenharia da computação da UnB Eduardo Calil e Matheus Veleci desenvolveram protótipo de aplicativo, que armazena informações sobre a qualidade e o consumo da água em residências e prédios comerciais (Foto: Júlio Minasi/Secom UnB)

A dupla conta que usou os parâmetros da Companhia de Saneamento Ambiental do Distrito Federal (Caesb) para analisar a água distribuída, como medir o pH e a temperatura para achar o oxigênio dissolvido. O resultado do cálculo, segundo eles, indica a quantidade de microrganismos na água e o risco de contaminação.

A expectativa, de acordo com os estudantes, é de que o protótipo também disponibilize informações sobre o racionamento no DF e apresente dicas para economia na utilização dos recursos hídricos. O projeto foi premiado durante a oficina Fiware, no IV Encontro dos Municípios com o Desenvolvimento Sustentável, que ocorreu em abril, em Brasília.

Vencedores pela melhor ideia, Matheus e Eduardo ganharam uma viagem para conhecerem a Smart City Expo World Congress, considerada uma das maiores feiras do mundo voltada à temática de cidades inteligentes. O evento ocorreu na semana passada, em Barcelona, na Espanha.

Consumo

A Companhia de Saneamento Ambiental do DF (Caesb) informou que, desde que o racionamento foi implementado na capital, a população reduziu o consumo de água em 15%. Mesmo com a redução, o reservatório do Descoberto – que abastece 2 em cada 3 imóveis residenciais, comerciais e industriais do Distrito Federal – atingiu o volume de 6,7% nesta segunda-feira (27).

Neste mês, a bacia do Descoberto baixou 1,5 ponto percentual (de 7% para 5,5%) em meros seis dias, segundo a medição da Agência Reguladora de Águas, Energia e Saneamento (Adasa). Apesar do cenário atual, o governador Rodrigo Rollemberg afirmou que segue “esperando pelas chuvas”.

A capital acumulou 234,2 milímetros de chuva até o último domingo (26). A quantidade superou a média prevista pelo Inmet para todo o mês de novembro, de 231,1 milímetros.

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